Nação Sacerdotal Yeshua Melekh
Artigos
O conceito Tanaico de Espírito

Atualmente, a grande maioria das pessoas entendem que espírito seria uma forma espectral de nossos corpos. Um corpo formado de uma matéria desconhecida, ao qual tem uma vida própria. Algumas pessoas costumam inclusive enfeitar um pouco mais, atribuindo a estes corpos asas para que os mesmos possam voar. Mas estaria o imaginário popular de acordo com as escrituras? O que as escrituras nos revela a respeito de “espírito”?                 

Definição

No Hebraico o termo (ר֫וּחַ – ruach) é comumente traduzido como “espírito”, mas o mesmo também significa “vento” ou “sopro”.

Seria o “espírito” apenas um “sopro”? Como entender o significado de ruach conforme os antigos entendiam? Vamos analisar o Tanakh!

Analisando o Tanakh

Vamos começar nossa analise apenas demonstrando a possibilidade das 3 traduções conforme já vimos. O termo é (בְּרֽוּחַ - beruach) que é a preposição “em” no hebraico mais o radical “ruach”.

"A língua benigna é árvore de vida, mas a perversidade nela deprime o espírito[beruach]."
Mish'le Shelomoh/Provérbios 15.4

"Então Mosheh/Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e YHWH fez retirar o mar por um forte vento[beruach] oriental toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas."
Shemoth/Êxodo 14.21

"Não escapará das trevas; a chama do fogo secará os seus renovos, e ao sopro[beruach] da sua boca desaparecerá."
Iyov/Jó 15.30

Caro leitor, observe que o contexto é claro nos dois últimos casos, e não deixa dúvidas a respeito da tradução. De fato “ruach” tem o significado de “vento” e “sopro”. Mas aí fica a pergunta: “então não temos dentro de nós um espírito, mas sim um sopro?”.

וַיִּיצֶר֩ יְהוָ֨ה אֱלֹהִ֜ים אֶת־הָֽאָדָ֗ם עָפָר֙ מִן־הָ֣אֲדָמָ֔ה וַיִּפַּ֥ח בְּאַפָּ֖יו נִשְׁמַ֣ת חַיִּ֑ים וַֽיְהִ֥י הָֽאָדָ֖ם לְנֶ֥פֶשׁ חַיָּֽה׃

"E formou YHWH Elohim o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente."
Bereshith/Gênesis 2.7

O texto não diz que temos um espectro dentro de nós, mas apenas diz que o Eterno soprou vida no Homem. Nem ao menos a palavra “ruach” se encontra nesta passagem, basta reparar nos termos em negrito.

O termo “ruach” deve ser entendido dentro do pensamento semita. A palavra “ruach” não significa um ser espectral, mas sim, vento ou sopro. O vento não pode ser visto e nem tocado, quando o vento sopra, apenas podemos ouvir, mas não podemos saber de onde vem ou para onde vai. Assim também é o entendimento que vem de YHWH, não sabemos de onde vem, e nem para onde vai nos conduzir, pois é algo que está além dos nossos planos. Portanto, podemos entender que “ruach” significa “mover” ou “motivação”.

"Quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Tziyon/Sião, e limpar o sangue de Yerushãlayim/Jerusalém, do meio dela, com o espírito[beruach] de justiça, e com o espírito[uberuach] de ardor."
Yesha'yãhu/Isaías 4.4

Podemos observar claramente neste pãsuq que “ruach” não visa demonstrar um ser espectral, mas sim, um “mover” de justiça e um “mover” de ardor. Yesha’yãhu está dizendo que o mover de justiça fará com que os homens busquem justiça com ardor, e isso nada tem a ver com seres espectrais.

"Falarás também a todos os que são sábios de coração, a quem eu tenho enchido do espírito[ruach] da sabedoria, que façam vestes a Aharon/Arão para santificá-lo; para que me administre o ofício sacerdotal."
Shemoth/Êxodo 28.3

Neste pãsuq também podemos ver que “ruach” significa um mover de sabedoria, e não um ser espectral. Uma outra observação que gostaria de fazer a respeito deste pãsuq, é que esta tradução foi bastante tendenciosa a respeito da qualidade do “espírito”. Conforme a doutrina cristã, “espírito da sabedoria” seria outro nome para o conhecido “espírito santo” que é um ser da trindade. Mas ao observarmos o Hebraico percebemos que não existe o artigo definido (ר֣וּחַ חָכְמָ֑ה – ruach chãkh’mãh). A tradução deveria ter sido “espírito de sabedoria”, sem o artigo definido. Logo, podemos ver que este “mover de sabedoria” não se trata de um ser, mas sim, de apenas uma motivação.

Mas nem toda ruach vem do Eterno. Algumas vezes o “mover” surge do nosso próprio entendimento.

"Fala aos filhos de Yisrã’el, e dize-lhes: Quando a mulher de alguém se desviar, e transgredir contra ele, De maneira que algum homem se tenha deitado com ela, e for oculto aos olhos de seu marido, e ela o tiver ocultado, havendo-se ela contaminado, e contra ela não houver testemunha, e no feito não for apanhada, E o espírito[ruach] de ciúmes vier sobre ele, e de sua mulher tiver ciúmes, por ela se haver contaminado, ou sobre ele vier o espírito[ruach] de ciúmes, e de sua mulher tiver ciúmes, não se havendo ela contaminado,"
Bemidh'bar/Números 5.12-14

Observe que a ruach de ciúmes é um mover que surge no próprio homem. Este ciúmes pode ser apenas uma suspeita ou pode ter alguma base para o ciúmes, mas houve um mover que motivou este homem a sentir ciúmes, por isso as escrituras o chama de “espírito de ciúmes”. Diferente do que as pessoas possam dizer, o “espírito de ciúmes” não é uma entidade maligna, pois o texto não dá motivo algum para interpretarmos deste modo.

Um outro texto que nos mostra a respeito de como o “mover” pode surgir a partir da compreensão humana está em Bereshith, confira abaixo.

"Ora, sendo Essãu da idade de quarenta anos, tomou por mulher a Yehudhith/Judite, filha de Be’eri, heteu, e a Bashemath, filha de Elon, heteu. E estas foram para Yitz’chãq/Isaque e Riv’qãh/Rebeca uma amargura de espírito[ruach].
Bereshith/Gênesis 26.34-35

As esposas de Essãu foram péssimas cunhadas, o que causou tristeza em Yitz’chãq e Riv’qãh. O entendimento que estas mulheres não eram boas cunhadas é que gerou a “amargura de espírito”. Esta amargura não tem nada a ver com um ser espectral se sentindo amargurado, mas sim, um sentimento causado devido a uma situação. Portanto, vemos que no exemplo anterior “ruach” tem o sentido de “suspeita”, e aqui vemos que “ruach” significa “sentimento”.

Agora pra encerrarmos, vamos analisar melhor o relato em que o rei Shã’ul invoca através de uma feiticeira a Shemu’el.

"A mulher então lhe disse: A quem te farei subir? E disse ele: Faze-me subir a Shemu’el/Samuel. Vendo, pois, a mulher a Shemu’el, gritou com alta voz, e falou a Shã’ul/Saul, dizendo: Por que me tens enganado? Pois tu mesmo és Shã’ul. E o rei lhe disse: Não temas; que é que vês? Então a mulher disse a Shã’ul: Vejo poderes(Elohim) que sobem da terra. E lhe disse: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Shã’ul que era Shemu’el, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou. Shemu’el disse a Shã’ul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Shã’ul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Elohim se tem desviado de mim, e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer."
Shemu'el ãleph/1 Samuel 28.11-15

Neste relato temos muitos pontos importantes a serem observados, dos quais as pessoas geralmente ignoram. Observe que a feiticeira perguntou a quem ela deveria fazer subir. Shã’ul pede para ela fazer subir a Shemu’el, e até então ela ignora que quem está diante dela é o rei Shã’ul. Mas apenas quando Shemu’el realmente aparece diante da mulher, é que ela reconhece que quem está diante dela é o rei Shã’ul. Mas por que este susto? Por que ela apenas reconheceu isso depois que viu a Shemu’el? Deixo ao leitor a resposta.

Outro ponto importante a ser analisado é que Shã’ul e seus homens não conseguem ver nada “Não temas; que é que vês?”. Ora, se um espírito aparece de modo visível, este deveria ser visível a todos. Mas por que só a mulher viu? Caro leitor, se você remover os dogmas pré-concebidos e através de um novo entendimento você pode ver claramente que esta mulher estava tendo uma visão. Esta visão estava apenas em sua mente e por isso os demais não poderiam ver. Elohim permitiu a mulher de ter esta visão para mostrar à Shã’ul que seu reino realmente estava prestes a cair.

Mas se só a mulher era capaz de ver Shemu’el, por que o texto diz “Shemu’el disse a Shã’ul”? Era comum para as pessoas daquela época entenderem que o porta-voz era a própria pessoa falando. Ou seja, Shemu’el estava falando através da visão que a mulher teve, e isto na concepção semita é o mesmo que o próprio Shemu’el estivesse falando.

Conclusão

Caro leitor, é possível ver que a forma do entendimento comum a respeito de espírito está bastante distante daquilo que as escrituras nos informa. É incrível como as escrituras a milhares de anos atrás nos revelam um entendimento que o Homem moderno ainda não foi capaz de compreender.

Se as escrituras são nossa base de fé, então devemos entender o que as escrituras dizem a respeito de espírito, e a mesma nos mostra que espírito é um mover, e não um “ser”. Podemos descrever este mover das seguintes formas:

  • Um mover que vem de YHWH;
  • Um mover que surge no próprio Homem;
  • Um mover que gera suspeita ou o próprio sentimento de suspeita;
  • Um mover que gera sentimentos, tendo ou não a ação do Homem;
Material produzido por: Edenyah ben Adam
Conecte-se conosco no Facebook
Siga-nos no Instagram
Siga-nos no Twitter
Se inscreva em nosso Canal
Nação Sacerdotal Yeshua Melekh
Proibida a reprodução sem o consentimento dos responsáveis