Nação Sacerdotal Yeshua Melekh
Artigos
As duas Criações

Atualmente qualquer pessoa acredita que havia uma árvore que dava imortalidade ao Homem e que uma serpente enganou aos Homens, lhes tirando a imortalidade recebida através do fruto da árvore da vida. Mas será que esta forma de interpretar as escrituras está correta?

O que podemos ver nos 3 primeiros perãkim (capítulos) de Bereshith (Gênesis) não se trata de uma única história sobre a Criação, mas sim, temos duas formas diferentes de contar a Criação da Humanidade. O primeiro relato da Criação é um relato literal (Bereshith 1.1-31;2.1-4a), da forma como o profeta conseguiu descrever. Já o segundo relato é poético (Bereshith 2.4b-25;3.1-24) e não visa mostrar o que realmente aconteceu, mas visa deixar uma mensagem aos Homens por sua busca incessante em se tornar Elohim.

Nestas horas muitos ficam confusos, afinal, como você pode trocar algo que você acredita há anos por algo “novo” que alguém está lhe contando. No que acreditar? Devo acreditar naquilo que alguém está me contando agora ou em algo que sempre acreditei minha vida inteira? Gostaria de responder esta pergunta! Acredite na Palavra! Se o relato do Eden é literal, então devemos provar, e se não é literal, também devemos provar, e é isto o que vamos fazer a seguir!

Analisando o Tanakh

Contradições

As provas de que o relato do Eden não é literal são várias, e vamos começar analisando as contradições entre os dois relatos. Se ambos os relatos visam mostrar algo que aconteceu literalmente, então, ambos os relatos deveriam estar de acordo, certo? Mas será que ambos os relatos estão em pleno acordo?

A primeira contradição é a respeito da criação do Ser Humano. Observe como os dois relatos não tem concordância entre eles.

(Relato da Criação)
"E criou Elohim o homem[hã’Ãdham] à sua imagem; à imagem de Elohim o criou; homem[zãkhãr] e mulher[uneqevãh] os criou."
Bereshith/Gênesis 1.27

(Relato do Eden)
"E formou o YHWH Elohim o homem[hã’Ãdhãm] do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem[hã’Ãdhãm] foi feito alma vivente."
Bereshith/Gênesis 2.7

No Relato da Criação, vemos que YHWH criou “Macho e Fêmea”, criou a ambos, mas já no Relato do Eden, YHWH criou apenas o “Homem”. Mas estaria a palavra “hã’Ãdhãm” se referindo aos dois? Certamente que não, pois mais a frente o texto deixa claro que somente o “Macho” foi criado.

(Relato do Eden)
"
E disse YHWH Elohim: Não é bom que o homem[hã’Ãdhãm] esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele."
Bereshith/Gênesis 2.18

Do mesmo modo os pesuqim 21 e 22 demonstram que a mulher foi formada depois do homem. Portanto, vemos claramente que ambos os relatos não se correspondem, pois um diz que ambos foram criados, e no outro diz que apenas um foi criado, e o outro foi criado posteriormente.

A segunda contradição ainda ronda sobre o Ser Humano. A primeira contradição é facilmente identificada, e muitos já se questionaram a respeito, mas a segunda é mais sutil e poucos perceberam a mesma.

(Relato da Criação)
"
E criou Elohim o homem à sua imagem; à imagem de Elohim o criou; homem e mulher os criou. E Elohim os abençoou, e Elohim lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra."
Bereshith/Gênesis 1.27-28

(Relato do Eden)
"E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam."
Bereshith/Gênesis 2.25

No Relato da Criação, YHWH imediatamente ordena ao Ser Humano a procriação e reprodução, já no Relato do Eden, ambos estavam nus e não se envergonhavam, ou seja, eles não tinham consciência da nudez e sendo assim, eles não tinham a consciência da procriação e reprodução. Mais uma vez estes dois relatos se contradizem, mostrando se tratar de duas histórias diferentes.

Ainda existe uma terceira contradição. A ordem como as coisas foram criadas não confere entre os relatos. Por motivos de brevidade, não irei colocar todo o texto, mas vou citar os pesuqim (versículos) para que seja possível conferir o que está sendo mostrado.

ORDEM

RELATO DA CRIAÇÃO

RELATO DO EDEN

1

Criação das ervas, verduras e árvores frutíferas. (Gn 1.11-13).

Criação de Adão (Gn. 2.7).

2

Criação dos animais terrestres (Gn. 1.24-25).

Criação das verduras e árvores frutíferas (Gn. 2.8-9).

3

Criação do Ser Humano (Gn. 1.26-27).

Criação das feras selvagens e aves do céu (Gn. 2.18-19).

Obs.: Foi colocado na tabela apenas os itens que tem correspondência entre os dois relatos.

Veja que colocando lado a lado, é possível ver claramente que existe um equívoco na ordem da criação, há não ser que se trate de histórias diferentes.

Até aqui tivemos 3 contradições claramente visíveis ao ler os textos. Mas ainda existe uma quarta “contradição” que se trata na realidade de uma evidência. O redator de Bereshith provavelmente utilizou de pergaminhos diferentes para montar sua história, e ele fez questão de não tentar harmonizar os textos para deixar claro que se tratavam de duas histórias diferentes, e uma prova de que se trata de dois textos diferentes e de autores diferentes é o estilo redacional. Sem entrar em minúcias e questões técnicas, vou apenas trazer uma característica que diferencia a escrita de forma óbvia dos autores. No Relato da Criação, o autor utilizou o tempo todo o termo “Elohim”, traduzido comumente como “Deus”, e em momento algum o autor usou o Tetragrama. Já no Relato do Eden, o autor usou constantemente o Tetragrama e ainda o utilizava com o título “Elohim”, sendo visto constantemente o termo “YHWH Elohim” ou conforme as traduções “SENHOR deus”. Esta é uma característica que até mesmo este que vos escreve, sendo um leigo em analise das características redacionais, é capaz de analisar e perceber que se trata de textos diferentes e autores diferentes.

(Relato da Criação)
"E viu Deus (Elohim - אֱלֹהִ֛ים) que era boa a luz; e fez Deus (Elohim - אֱלֹהִ֛ים)  separação entre a luz e as trevas."
Bereshith/Gênesis 1.4

(Relato do Eden)
"E plantou o Senhor deus (YHWH Elohim - יְהוָ֧ה אֱלֹהִ֛ים) um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado."
Bereshith/Gênesis 2.8

Observe que o Relato da Criação inteiro segue um estilo, e o relato do Eden já segue outro, o que nos mostra que foram escrito por autores diferentes e provavelmente, tempos diferentes.

Localização do Jardim

O Relato do Eden trás para nós uma localização de onde estava este Jardim. Mas por qual motivo o redator iria nos dar uma localização? A resposta mais óbvia seria para que os leitores pudessem ir ao Eden procurar este jardim.

(Relato do Eden)
"E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates."
Bereshith/Gênesis 2.10-14

Possívelmente o redator buscou dar uma localização para que os leitores buscassem o local e ao se deparar com a região, percebessem que o texto é poético e não literal. Caso alguém deseje, pode procurar em qualquer lugar do mundo, e jamais irá encontrar um local com uma espada de fogo impedindo a entrada de pessoas.

(Relato do Eden)
"E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida."
Bereshith/Gênesis 3.24

Mas algumas pessoas dizem que o Jardim de Eden está no céu, e por isso não podemos ver. Bom, isto é extrabíblico, o que o redator escreveu foi que havia uma espada em chamas e em momento algum ele disse que o Jardim subiu ao céu. Este é o tipo de coisa criada para poder justificar aquilo que não conseguimos encontrar resposta nas escrituras. Não adianta ficar buscando justificativas através de achismos, sendo que a nossa crença deve estar baseada nas escrituras, e não em achismos.

Além do achismo, algumas pessoas ainda usam os textos de Gely’ãnã (Apocalipse) para tentar justificar que o Jardim de Eden se encontra no céu. Bom, sem querer aprofundar muito na questão, mas usar um texto cheio de figuras de linguagem para tentar provar algo literal não me parece ser uma boa solução. Primeiro é necessário entender o que significa cada figura do texto, para depois tirar conclusões, mas não faremos isso aqui, pois perderíamos o foco deste artigo.

O Jardim é uma figura de linguagem

O Relato do Eden é utilizado como figura de linguagem e muitas pessoas vacilam em suas crenças por entender tudo de forma literal.

"Estiveste no Éden, jardim de Elohim; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados."
Yechezq’el/Ezequiel 28.13

O Eden aqui é uma cidade próspera e boa de viver, mas muitos interpretam este texto como algo literal, acreditando que um anjo chamado Lucifer estava no Eden e este anjo caiu junto com um terço dos anjos. O grande problema disso tudo é que o texto diz claramente que esta é uma profecia a respeito do príncipe de Tiro.

"E veio a mim a palavra de YHWH, dizendo: Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz Adhonãy YHWH: Porquanto o teu coração se elevou e disseste: Eu sou El, sobre a cadeira de Elohim me assento no meio dos mares; e não passas de homem, e não és El, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Elohim;"
Yechezq’el/Ezequiel 28.1-2

O texto é bastante claro e mostra que não se trata de Lucifer, mas sim do príncipe de Tiro, e que este homem não estava literalmente no Eden, mas sim, em um reino próspero e pacífico.

Os escritores bíblicos entendiam que não se tratava de um relato literal, e por isso, muitas vezes, eles utilizavam o Eden como figura de linguagem.

"Formoso o fiz com a multidão dos seus ramos; e todas as árvores do Éden, que estavam no jardim de hãElohim, tiveram inveja dele."
Yechez'el/Ezequiel 31.9

"Porque YHWH consolará a Tzion/Sião; consolará a todos os seus lugares assolados, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão como o jardim de YHWH; gozo e alegria se achará nela, bendições, e voz de melodia."
Yesha’yãhu/Isaías 51.3

Shã’ul haShaliãch (Paulo o Emissário) também compreendia que o Relato do Eden não era algo literal, e por isso, ele fala com total liberdade com o Romanos.

"No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir."
Rummanyah/Romanos 5.14

Conforme Shã’ul, Ãdhãm foi criado para representar dentro dos Escritos o Mãshiach que traria a vida eterna para o Povo de YHWH. O Mãshiach é a figura oposta de Ãdhãm, pois através de um veio a morte, e através do outro veio a vida.

Além da figura do Mãshiach, existem muitas lições importantes, mas vamos falar apenas mais uma para fecharmos o artigo. A serpente encontrada no Relato do Eden tem uma característica que também é apresentada no Homem, que é a estultícia e a nudez. Se olharmos no Hebraico, veremos que a mesma palavra usada para designar a estultícia da serpente, também é usada para designar a nudez do Ser Humano.

(Relato do Eden)
"
E ambos estavam nus [arummim - עֲרוּמִּ֔ים], o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam."
Bereshith/Gênesis 2.25

(Relato do Eden)
"
Ora, a serpente era mais astuta [ãrum - עָר֔וּם] que todas as alimárias do campo que o YHWH Elohim tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Elohim disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?"
Bereshith/Gênesis 3:1

Obviamente, existe uma pequena diferença na escrita pois um está no singular e outro no plural, mas a mesma palavra que significa nudez em um versículo, significa “astuta” em outro. Não por acaso, o redator colocou a observação a respeito da nudez junto com a observação da estultícia da serpente, para que as pessoas ao lerem o texto, pudessem fazer esta relação de imediato. Mas o que quer dizer isto? O fato do redator ter usado uma mesma palavra para designar a “nudez” e a “estultícia” mostra que existe uma ligação entre os dois, e que a serpente na realidade era uma representação da inclinação ao mal que está dentro do Ser Humano. A figura da serpente visa apenas mostrar através de uma figura visível, algo que está nos anseios humanos, e por isso, não podemos ver, e dificilmente conseguimos descrever, mas a serpente esteve ali para nos mostrar como funciona a mente humana, e como arrumamos desculpinhas para fazer aquilo que não devemos fazer.

Aí a grande maioria das pessoas vai dizer: “Ah, mas era satan que estava na serpente e enganou ao Homem”. Bom, em primeiro lugar, o texto não diz em lugar algum que “satan” incorporou na serpente. Se isto realmente tivesse acontecido, era uma informação extremamente importante que o redator certamente teria agregado ao texto, mas ele não agregou pelo simples fato de que isto não aconteceu. Outro grande problema está na punição que cada um recebeu e aí entra e “quinta contradição”. Ora, a mulher foi punida por seu erro e recebeu uma punição proporcional ao erro cometido, o homem também foi punido e recebeu uma punição proporcional, assim como a serpente também foi punida, recebendo sua punição conforme o seu erro. Mas e satan? Onde diz no texto que satan foi punido? Por que satan, que foi o grande problema nisso tudo não teve punição nenhuma? Por que a serpente que foi apenas uma mera ferramenta teve sua punição e satan saiu ileso? Ora, a serpente é um animal irracional, e a mesma não peca por não ter consciência de bem e mal. Se um espírito ruim possuiu um animal irracional, não podemos dizer que a culpa é do pecado do animal, uma vez que o animal não peca, e do mesmo modo, o animal não teve nenhuma escolha, ele simplesmente foi possuído e seria algo completamente injusto punir um animal e não punir a “entidade” que possuiu o animal.

E aproveitando o embalo do assunto para entrar na “sexta contradição”. O texto diz que a punição da serpente seria andar sobre o seu ventre, mas em momento algum o texto diz que a serpente perderia a capacidade de falar, porém as serpentes de hoje não falam mais, o que teria acontecido com estas serpentes que falam? Será que elas foram levadas para o céu?

Conclusão

Vejamos um resumo do que vimos até aqui:

  • ·         A criação do homem não condiz nos dois relatos;
  • ·         A condição humana também não condiz nos dois relatos;
  • ·         A ordem dos eventos não condiz nos dois relatos;
  • ·         Existe uma diferença característica no modo de composição do texto;
  • ·         O texto descreve um local que não podemos encontrar;
  • ·         O Eden é comumente usado como figura de linguagem;
  • ·         A serpente é a inclinação ao mal que está dentro do Homem;
  • ·         “Satan” não foi punido;
  • ·         Serpentes não falam;

O relato do Eden visa trazer esclarecimento a respeito da condição humana e não visa retratar algo que aconteceu de fato.

Material produzido por: Edenyah ben Adam
Conecte-se conosco no Facebook
Siga-nos no Instagram
Siga-nos no Twitter
Se inscreva em nosso Canal
Nação Sacerdotal Yeshua Melekh
Proibida a reprodução sem o consentimento dos responsáveis