Estava lendo Ben Sira/Eclesiástico e me deparei com algo que despertou um novo entendimento para mim.
"A raiz do pensamento é o coração, dele nascem quatro ramos:
o bem e o mal, a vida e a morte, e o que os domina sempre é a língua."
Ben
Sira/Eclesiástico 37.17-18 (Versão: Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002)
Obs.: Nas versões católicas tradicionais, os pesuqim/versículos têm uma contagem diferente, por isso, este texto será encontrado no pãsuq/versículo 21.
Vejam que coisa mais interessante vemos aqui. Quando ouvimos dizer “bem e mal, vida e morte”, pensamos em apenas duas colunas
|
Bem e Vida |
Mal e Morte |
Porém, ben Sira fala de 4 ramos, logo, seriam 4 colunas.
|
Bem |
Mal |
Vida |
Morte |
Observe que o bem não está ligado com a vida, e sim está numa coluna separada. Da mesma forma, podemos também ver esta mesma idéia aplicada analogicamente no Êdhén.
"E YHWH Elohim fez brotar da terra toda a árvore agradável à
vista, e boa para comida; e a árvore da vida[hachayyim] no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem[tov] e do mal[wãrã]."
Bereshith/Gênesis
2.9
Observe que existia uma arvore da vida, e uma arvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, o bem não está ligado à vida e o conhecimento do bem e do mal afastou HaÃdhãm (O Homem) da vida, logo conseqüentemente vem a morte. Quando HaÃdhãm (O Homem) escolheu o conhecimento do bem e do mal, ele deixou para trás a vida.
Este princípio é bastante simples de se entender. Assim como a escuridão é ausência de luz, e o frio é ausência do calor, a morte é ausência da vida. Assim comprovamos alguns versículos a frente (no 17 para ser exato) onde HaShem diz que certamente HaÃdhãm morrerá no dia que comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
"Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não
comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás[tãmuth]."
Bereshith/Gênesis
2.17
Portanto, o que isto quer dizer? Tanto o bem como o mal levam à morte!
O que fazer então para obter vida? Certamente não é apenas fazendo o bem, mas na própria analogia proposta no relato do Êdhén vemos que a vida vem através da obediência. HaÃdhãm desobedeceu o mandamento de HaShem e por isso ele se afastou da vida (ou seja, alcançou a morte).
Veja bem, a árvore que levou o Homem à morte, é a árvore que deu ao Homem o conhecimento do mal, mas também o conhecimento do bem. Portanto, o simples ato de fazer o bem não leva ninguém à vida.
O que levou o Homem à morte foi um simples fruto? Não! Mas foi a desobediência do mandamento!
O Homem por si só é incapaz até mesmo de saber o que é o bem. Muitas vezes somos injustos e fazemos aquilo é que bom para nós, mas sem perceber fazemos o mal para os demais. Portanto, o bem não pode levar a vida, mas o que leva são os mandamentos!
Porém, é necessário estar atento, pois os mandamentos não são vida, mas é o caminho que leva à vida. Pois o fruto da vida estava ao alcance de HaÃdhãm enquanto ele obedecia, mas a partir do momento em que ele desobedeceu, o mesmo deixou de ter acesso ao fruto. Sendo mais claro, o mandamento não era o fruto em si, mas era o que permitiu HaÃdhãm ter acesso ao fruto.
"Então disse o YHWH Elohim: Eis que o homem é como um de nós,
sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da
árvore da vida[hachayyim], e coma e
viva[wãchay] eternamente, YHWH Elohim,
pois, o lançou fora do jardim do Êdhén, para lavrar a terra de que fora tomado."
Bereshith/Gênesis
3.22-23
Mas o que seria a árvore da vida? Esta árvore da vida é um tanto misteriosa e temos pouco a respeito desta, mas analisando o Hebraico, podemos esclarecer algumas coisas a respeito desta árvore.
Pelo Hebraico nós temos (עֵ֤ץ הַֽחַיִּים֙ – Êtz hachayyim) que significa Árvore de vidas. O termo chay está no plural, portanto, a mesma nos dá vidas. É possível entender aqui também um plural superlativista, portanto, apesar de estar no plural, hachayyim tem o sentido de vida eterna.
É importante percebermos que nós temos chay (vida), mas não temos chayyim (vidas/vida eterna). E para alcançar o chayyim, é necessário obediência.
"Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de
que te tenho proposto a vida[hachayyim] e a morte[wehammãwéth], a
bênção e a maldição; escolhe pois a vida[bachayyim], para que viva[tich'yéh],
tu e a tua descendência,"
Devãrim/Deuteronômio
30.19
Observe que curioso. YHWH propõe chayyim (vida eterna) e morte. Porém, ao escolher pelo chayyim HaÃdhãm apenas viveria (tich’yéh cuja raiz é chãyãh - חָיָה). Percebemos que pela própria Torãh, que YHWH não dá acesso à Êtz hachayyim apenas por obedecer os mandamentos.
Observe também que o Salmista fala a respeito de chayyim (vida eterna), mas não diz o que fará nós termos chayyim.
"Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha
glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma
no she’ol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver
a vereda da vida[chayyim]; na tua presença há fartura de alegrias; à tua
mão direita há delícias perpetuamente."
Tehilim/Salmos
16.9-11
Apesar do Salmista não deixar claro o que nos daria o chayyim, mas ele nos dá uma pista. A destra de YHWH está ligada ao chayyim. A destra de YHWH representa verdade, conhecimento, juízo, força, etc. Porém, não há um justo para que este se mantenha diante da destra de YHWH, portanto, podemos concluir que a destra mencionada pode se tratar da misericórdia de YHWH. Sem a misericórdia, jamais poderíamos ter acesso ao chayyim.
Mas YHWH sempre teve misericórdia de nós Homens, então o que falta para termos acesso ao chayyim? Esta questão é um tanto difícil, mas para nós, não importa aqui sabermos quando, mas sim, como!
Alguns profetas falam da ressurreição dos mortos. Assim como o Salmista em Tehilim 16.9-11 diz que sua alma não permaneceria no she’ol, a ressurreição está intimamente ligada à este conceito do Salmista. Vamos então dar uma olhada em Yesha’yãhu/Isaías, onde veremos um interessante trecho que nos mostra a respeito da ressurreição.
"Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e
ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho
será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos. Vai, pois, povo
meu, entra nos teus quartos, e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só
por um momento, até que passe a ira."
Yesha’yãhu/Isaías
26.19-20
Podemos ver que o orador neste texto é YHWH. Portanto, este cadáver citado, trata-se de um cadáver de YHWH. Porém, buscando no texto Hebraico, podemos ter uma revelação ainda maior.
יִֽחְי֣וּ מֵתֶ֔יךָ
נְבֵלָתִ֖י יְקוּמ֑וּן
Yih'yu mêthekhã nevêlãthi yequmun
Literalmente temos: “Viva seus mortos meu corpo morto levantou”. Ou seja: “Seus corpos viverão assim como meu corpo mortal se levantou”.
Yesha’yãhu nos mostra que nós levantaremos, assim como o corpo de YHWH se levantou, e ele ainda diz que devemos aguardar até que passe a ira. Novamente não temos um tempo certo, mas já temos um por quê.
"Disse-lhe Yeshua: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê
em mim, ainda que esteja morto, viverá;"
Yochãnãn/João
11.25
Yeshua afirma de forma categórica a condição para a vida, que é crer Nele (ou seja, abraçar a sua Nova Aliança). Yeshua sendo a Torãh viva, nos mostra que a obediência através da crença Nele nos eleva ao Pai, ao qual nos dá a vida (chayyim).
"Disse-lhe Yeshua: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida;
ninguém vem ao Pai, senão por mim"
Yochãnãn/João
14.6
E para chegarmos ao Pai, devemos prosperar em nossa luta diária em obediência para que possamos ser os “Bem-aventurados” de Gel’yãna.
"Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos,
para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade
pelas portas."
Gel'yãna/Apocalipse
22.14
Conclusão
Vimos que não é tão simples entendermos a questão de como alcançar a vida. Aqueles que se apóiam apenas no Tanakh, como a própria Torãh revela, os que escolhem por chayyim (vida eterna) terá chayah (vida), mas ainda lhe faltará algo que lhe levará ao chayyim. E para aqueles que se apóiam unicamente no vulgo “Novo Testamento”, podem até conhecer o caminho, mas muitos deles escolheram muth (morte) que ocorre através da desobediência.
Portanto podemos resumir nosso estudo da seguinte forma:
- Fazer o bem não
significa alcançar a vida eterna;
- A obediência nos
mostra o caminho, mas por si só, não é o caminho à vida;
- Os justos se
levantarão assim como o corpo mortal de YHWH se levantou;
- Os que aceitam a
Nova Aliança alcançarão a vida;
- Os que aceitam a
Nova Aliança prosperam em obediência e pela sua obediência, receberão a
vida.
